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A poesia nasceu (em
sua rua raiz ocidental, que é a Ilíada de Homero)
como uma aguda percepção do Tempo e da História -
o que culmina, já no século XX, com The Waste Land
de T. S. Eliot.
A poesia incorporou também, desde sempre, diversas vertentes líricas
e ainda as reflexivas ou metafilosóficas (quando parece explorar
os lapsos da filosofia), entre outras, algumas de difícil classificação.
E, em todos os seus sabores, sempre houve na poesia as características
de ritmo e métrica que lhe conferem suas formas particulares, passíveis
de serem associadas à música - e a poesia já foi
também -e às vezes ainda é- também uma arte
de cantadores.
Seria possível dizer que ainda hoje há música na
poesia, mesmo naquela que não tem características diretamente
musicais?
Creio que sim. Mesmo o chamado "verso livre" tem, em vários
casos, algum tipo de métrica e ritmo, ainda que irregulares.
Mas me parece igualmente verdadeiro que a musicalidade própria
de muitos poemas raramente se presta ao canto, ou que, ao menos, é
muito difícil musicá-los e cantá-los sem que se tangencie
o patético.
Exemplo: algumas das tentativas feitas de musicar poemas de poetas modernistas
brasileiros parecem-me francamente constrangedoras. E, em muitos casos,
a empreitada foi levada a cabo por bons compositores.
Lembro-me, com especial pavor, de "Desencanto" de Manuel Bandeira,
com música de Fructuoso Vianna. O último verso então,
"eu faço versos como quem morre", reveste-se de uma
retórica tão grandiosa que arrasa totalmente o sentido do
poema que, ali, exigiria o tom de um suspiro. Um belo poema, uma desastrosa
canção.
Federico García
Lorca é um poeta especialmente musical - e creio que nisso
toda a gente concorda.
Lorca era apaixonado pelo flamenco, pelo cante jondo ("canto
fundo") andaluz. E não era um observador externo, que olha
com certo interesse distanciado o mundo do folclore. Em apresentações
públicas, ele executava ao piano canções dessa raiz
de Andalucía, também cantando ou acompanhando cantadores.
Na década de 1920 colaborou com o (grande!) pianista e compositor
Manuel de Falla.
Além disso, há muitos poemas de Lorca que tiveram como motivação
canções e temas da tradição musical andaluz.
Exemplos destacados são o Poema del Cante Jondo, e o Romancero
Gitano. Não bastasse, ele também compôs canções,
como as Canciones para ninõs, os Cantares Populares e
outras.
Alguns de seus poemas também foram musicados com muita felicidade
- e naturalidade. Não soa artificial, retórico, ou diluído.
Ainda assim, em vários deles (inclusive muitos do Romancero
Gitano), ao meu gosto, sua música é mais contundente
na leitura solitária e silenciosa.
Pois, na musicalidade desses poemas em si mesmos, no ritmo que lhes é
tão característico, há uma carne de imensa força
visual - que o canto torna (ou provavelmente tornaria) menos contundente.
Essa força
revela-se particularmente em vários poemas do Romancero Gitano,
publicado em 1928, onde o ritmo da balada envolve a retomada de uma
outra vertente antiga da poesia: imagens de uma concreticidade totalmente
física, a metáfora por identidade.
As coisas não parecem ser, as coisas são. Ao invés
de associação, há uma identidade substantiva:
"....................................
En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
....................................
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre
la mitad llenos de frio."
....................................
(em "La casada Infiel")
"Suas coxas
me escapavam / como peixes surpreendidos" é, sem esforço,
um pequeno tratado de arte poética, no que diz respeito a uma de
suas possibilidades de expressão. A metáfora sem associações
indiretas, tornando concreto aquilo que não deveria ser "real":
como peixes supreendidos, as coxas, os músculos, em sua substância,
escapavam.
Em diversos casos, esse tipo de associação realiza-se por
cortes visuais/metonímicos. Como aqui, onde o reflexo revela a
coisa refletida - "pelos olhos da monja / galopam..."
- até partir seu coração:
"....................................
Las cinco llagas de Cristo
cortadas em Almeria.
Por los ojos de la monja
galopan dos caballistas.
Um rumor último y sordo
le despega la camisa,
y al mirar nubes y montes
en las yertas lejanias,
se quiebra su corazón
de azúcar y yerbaluisa
...................................."
(em "La Monja Gitana")
Mas não são
apenas esses aspectos que tornam sua poesia tão forte.
Em Romance
Sonámbulo, o mais famoso poema desse livro, temos a fusão
total entre imagens e ritmo. É um poema de contextos que se revelam
por contraste, pois são fragmentos que não guardam uma conexão
lógica entre si.
Há imagens calcadas em conexões substantivas: olhos de
fria prata(...), eu já não sou eu / minha casa não
é mais minha casa(...), deixando um rastro de sangue / deixando
um rastro de lágrimas(...), mil pandeiros de cristal / feriam
a madrugada(...), guardas civis embriagados / na porta golpeavam(...).
Contudo, as conexões entre todas ocorre não por relação
direta, mas por contraste e choque, em um plano de aparência supra-real.
Vários comentaristas desse poema enxergam aí a influência
do surrealismo. De fato, ainda que através de uma apropriação
muito particular.
Apenas pelo contraste, essas conexões ganham sentidos que, não
sendo explícitos, permitem que cada leitor siga seu próprio
caminho.
No início desse poema temos um primeiro contexto em que uma mulher
sonha em sua varanda:
"Verde
que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montana.
Con la sombra en la cintura
ella suena en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fria plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la estan mirando
y ella no puede mirarlas."
O primeiro verso,
Verde que te quiero verde, é uma tautologia que parece anunciar
um rosário de banalidades (ou então um manifesto pela preservação
da natureza...).
Mas o poema lhe dará outro(s) sentido(s): paralisia, morte, falência,
que trancorrem na inconsciência do ator - e na do leitor: há
outras leituras possíveis.
A varanda é
verde, a carne da mulher é verde, mas seus olhos "de fria
prata".
Inicialmente, parece ser quase bucólico/contemplativo, como se
estivesse descrevendo um reflexo de luz que projetasse a cor da varanda
na mulher. Mas há algo insinuando que algum drama oculta-se nessa
quietude: os olhos ("fria prata": mortos? vidrados?);
e, em seguida, temos o contraste brusco de outra imagem: as coisas
a estão mirando / e ela não pode mirá-las. Os
olhos de fria prata não podem ver?
Assim, temos inicialmente um clima de calmaria e estagnação
- seguidos por uma nota de inquietação (ela não
pode ver...), a qual surge do nada, incidentalmente, como que por
acaso.
Na segunda estrofe
a estagnação parece se acentuar - mas de novo, e ainda mais
casualmente, outra nota de inquietação:
Verde que
te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
O primeiro verso, com a batida de estribilho, remete à contemplação
fechada em si mesma, introduzindo uma aparente descrição
de uma ambiência vaga, onde diferentes elementos surgem em uma combinação
improvável:
Grandes estrelas de geada(ou gelo) / chegam com o peixe de sombra /
que abre o caminho da alvorada. / A figueira arranha seu vento / com a
lixa de seus ramos.
O clima é bucólico e... paralítico.Mas... "Quem
virá? E por onde?" fere esse clima. Há algo de
inquietante..
A mulher só
reaparece ao final, na última estrofe - e já em outro contexto.
Antes disso, da terceira à quinta estrofes, ela é referida
em um contexto intermediário, onde dois compadres travam
um diálogo estranho.
O primeiro propõe uma troca, que parece não ter qualquer
conexão com o que veio antes, até que ele pergunta: onde
está tua menina amarga? Ao que o outro responde: quantas
vezes te esperou, quantas vezes te esperava, cara fresca, pelo negro,
nesta verde varanda.
Condensado ao limite, o poema acorda em nós toda a dimensão
do tempo que escorre entre os dedos, da distração fatal
por onde a vida passa até que já seja tarde, tarde demais.
O ritmo, com seu estribilho de disfarce/realce (Verde que te quero
vierde. / Verde viento. Vierdes ramas), envolve a construção
dessa imagem central de um tempo que aparenta paralisia, movendo-se à
distância dos atores.
O diálogo
dos dois compadres revela-nos que um outro tempo houve, que há
algo mais naquela varanda dissolvida no verde,
e que as coisas poderiam ter sido de outro modo - poderiam, mas não
foram:
"¿No
ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa. "
O primeiro deles
busca a mulher - busca também um tempo que talvez já não
esteja lá. Não mais:
"Ya
suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda! "
Quantas vezes
te esperou: houve um tempo de cara fresca, negro pelo,
houve um tempo em que apenas a varanda era verde, não a
carne, não a vida.
Mas esse tempo já se foi:
"Sobre
el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban. "
No tempo presente
é o que resta: Verde carne, pelo verde - olhos de fria prata.
A morte, a falência, como o tempo escorrido entre os dedos, o tempo
que se perde por não sabermos quem nós próprios somos,
como criaturas e matéria, ou pela impossibilidade de estar no mundo,
o tempo que passa e que não retorna, sem disso dar recibo ou aviso.
Assim, "Sobre el rostro del aljibe / se mecia la gitana"
(sob a face da cisterna, balançava-se a cigana). Creio que
aí, em uma escrita distanciada, está a morte - e a verde
carne.
Contudo, a dramaticidade do poema diz muito mais.
Não havendo uma conexão lógica direta entre cada
fragmento, as conexões realizam-se por imagens que, embora construídas
no plano supra-real do sonho (ou do pesadelo), são tão substantivas,
tão físicas, que nos arrastam à força para
a cena, os lugares, acontecimentos, sentimentos - que são apenas
vagamente sugeridos, mas tornam-se plenamente vivos, visuais, pela força
do contraste entre cenários ora aparentemente calmos, ora tensos.
Quando La noche su puso íntima / como una pequeña plaza,
é que Guardas civiles borrachos / en la puerta golpeaban.
Esses dois últimos versos parecem sair do nada, não relacionados
ao contexto. Contudo, esse é o contexto. Eles cortam a linguagem
do sonho/pesadelo. Eles são o pesadelo, o tempo em que acordamos,
presente, material.
Salvador Dali e Luis
Buñuel não gostaram do Romancero Gitano que consideraram
"tradicionalista".
Consta que Federico ficou abalado com essas críticas e as levou
em conta tentando ser "mais moderno" quando escreveu Poeta
en Nueva York.
O Romancero Gitano revela sem dúvida a continuidade de um
legado, um fio que vem de poesia antiga. Mas sua escrita é certamente
moderna - e é particularíssima sua combinação
de significados e o material verbal de suas imagens.
Dali e Buñuel deveriam talvez ler o que Ezra Pound escreveu sobre
certos poetas antigos (provençais, Guido Cavalcanti, Dante, François
Villon): sua força era tamanha que ali havia mais influências
de interesse para um poeta moderno do que em certos "modernistas
auto-declarados" que se tornaram apenas diluidores de formatos da
moda. Homero é mais moderno do que vários "vates
velhacos e falsários", para usar as palavras de Vladimir
Maiakóvski.
A morte de Lorca
Os comentários
acima manifestam o que penso: Federico García Lorca é um
dos grandes poetas do século XX e de todos os tempos. E, em sua
época, ele já era reconhecido como tal.
E por que o mataram?
O historiador Ian
Gibson em "A morte de Lorca" e em "Federico García
Lorca: uma biografia" tentou encontrar a razão. Curiosa
aliás é a história do próprio Gibson e de
como surgiu seu fascínio por Lorca.
Federico foi morto nas cercanias de Granada, talvez na localidade antes
denominado como 'Ainadamar' ("fonte de lágrimas"),
havendo relatos de que um dos assassinos, Juan Luis Trescastro, disparou
mais alguns tiros - quando o poeta já estava morto.
Gibson levanta
várias possibilidades, já que o seu assassinato não
seria politicamente interessante, naquele momento, para os fascistas -
ao menos para a sua alta cúpula.
Mas havia na Andaluzia muitos fascistas que odiavam pessoalmente Federico
- por suas ligações com os republicanos, por seu anti-fascimo,
por seu homossexualismo, por sua poesia, e até mesmo pelo modo
positivo com que considerava a influência mulçumana na formação
daquela região. Lorca reunia características intoleráveis
para um fascista, especialmente os mais radicais e os ultracatólicos.
Sugiro a todos os que se interessam seja por Lorca seja por esse período
crucial, a leitura das obras de Ian Gibson.
Há inclusive, correndo pela Internet, uma história fantasiosa,
nascida em um filme recente, onde certas desavenças de família
passam a ter um papel ressaltado na trama do assassinato. O mais estranho
é que a obra de Gibson é citada em favor dessa tese. E quem
as leu por inteiro sabe que o fato de alguns dos fascistas da Andaluzia
terem parentesco distante com Lorca não vai além do detalhe
casual nas investigações de Gibson, que não deixa
aliás margem a dúvidas.
Diz Gibson, assinalando,
sem meias palavras, o papel da ala mais radical do franquismo:
"É
minha convicção de que a perseguição
que conduziu à morte do poeta foi iniciada não por
um homem mas sim por um grupo de ultracatólicos e membros
da 'Acción Popular', de mentalidade semelhante"
Lorca tornou-se assim,
à revelia, um dos grandes signos do século XX.
Esse século,
que foi o "século do assalto aos céus",
como disse Isaac Deutscher a propósito dos tempos iniciais da Revolução
Russa, foi, também o século de fundas descidas ao inferno.
Ah, os poetas...
Esse século não passou sem eles: a morte de Federico García
Lorca (assassinado pelos fascistas), o suicídio de Vladimir Maiakóvski
(sua amargura com os rumos da Revolução Russa) e a insânia
criminosa de Ezra Pound (sua adesão a Mussolini, a partir de sua
visão simplória sobre o capitalismo - que ele reduzia à
"usura"), são, como emblemas, signos vivos dos vértices
abismais do século XX.
A História sai dos poemas para invadir a vida dos poetas, em uma
fusão improvável da Ilíada de Homero e da
Terra desolada/devastada de Eliot, mas com personagens que se movem
em mundos paralelos - as faces invertidas de um mesmo mundo dividido,
a epopéia e a tragédia do século XX.
Foi isso o que me levou a escrever o poema "Fim
de Século". Para o bem e para o mal, o século
XX é o meu. E se pátria existe, minha pátria é
o meu tempo. É dele que sou feito. Por isso esse é o poema
que mais gostei de ter escrito.
E os 70 anos da morte da Lorca lembram-me quem sou.
Eu seria outra pessoa se não tivesse lido a poesia do meu tempo.
Devo a poemas como The Waste Land de Thomas Eliot, Ode Marítima
de Álvaro de Campos, Poema sem herói de Anna
Akhmátova, Romance Sonâmbulo de Lorca -e tantos outros-
o fio da meada do meu tempo, aí mais nítido e revelado do
que na linguagem teórica.
E, também, a percepção do tempo como um entidade
aparentemente tangível, mensurável, mas que escorre irrefreavelmente
entre os dedos - um espaço em movimento.
Ou, na síntese direta de Manuel Bandeira, o que poderia ter
sido e que não foi.
Esse verso de Bandeira é atemporal.
Mas nada definiria melhor o século XX.
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