voltar    
     
  Federico Garcia Lorca, poeta do século XX e de sempre  
     
 

nos 70 anos de sua morte aos 38 anos de idade
(5 de junho de 1898 - 19 de agosto de 1936)

 
     
  Basilio Miranda
19/agosto/2006
 
     
     
 

A poesia nasceu (em sua rua raiz ocidental, que é a Ilíada de Homero) como uma aguda percepção do Tempo e da História - o que culmina, já no século XX, com A terra devastada de T. S. Eliot. A poesia incorporou também, desde sempre, a vertente lírica e ainda a reflexiva ou metafilosófica (quando parece explorar os lapsos da filosofia).
E, em todos os seus gêneros, sempre houve na poesia as características de ritmo e métrica que lhe conferem suas formas particulares, passíveis de serem associadas à música - e, em velhos tempos, a poesia foi também uma arte de cantadores.
Seria possível dizer que ainda hoje há música na poesia?
Creio que sim. Mesmo o chamado "verso livre" tem algum tipo de métrica e ritmo, ainda que irregulares.
Mas me parece igualmente verdadeiro que a musicalidade própria de muitos poemas raramente se presta ao canto, ou que, ao menos, é muito difícil musicá-los e cantá-los sem que se tangencie o patético.
Algumas das tentativas feitas de musicar poemas de poetas modernistas brasileiros parecem-me francamente constrangedoras. E, em muitos casos, a empreitada foi levada a cabo por bons compositores.
Lembro-me, com especial pavor, de "Desencanto" de Manuel Bandeira, com música de Fructuoso Vianna. O último verso então, "eu faço versos como quem morre" reveste-se de uma retórica tão grandiosa que arrasa totalmente o sentido do poema que, ali, exigiria o tom de um suspiro. Um belo poema, uma desastrosa canção.

Federico Garcia Lorca é um poeta especialmente musical - e creio que nisso toda a gente concorda.
Aliás, alguns de seus poemas foram musicados com muita felicidade - e naturalidade. Não soa artificial, retórico ou, no ponto oposto, diluído.
Ainda assim, ao meu gosto, sua música é mais contundente na leitura solitária e silenciosa.
Pois parece-me que, apesar do bom sucesso das canções, há algo que nelas se perde: na musicalidade dos poemas em si mesmos, no ritmo que lhes é tão característico, há uma carne de imensa força visual - que o canto quase sempre torna menos contundente.

Seguindo uma das vertentes antigas da poesia, o ritmo em Lorca envolve imagens de uma concreticidade totalmente física.
As coisas não parecem ser, as coisas são. Ao invés de associação, há uma identidade substantiva:

"....................................
En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
....................................
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre
la mitad llenos de frio."
....................................
(em "La casada Infiel")

"Suas coxas me escapavam / como peixes surpreendidos" é, sem esforço, um pequeno tratado de arte poética.

Ou ainda:

"....................................
Las cinco llagas de Cristo
cortadas em Almeria.
Por los ojos de la monja
galopan dos caballistas.
Um rumor último y sordo
le despega la camisa,
y al mirar nubes y montes
en las yertas lejanias,
se quiebra su corazón
de azúcar y yerbaluisa
...................................."
(em "La Monja Gitana")

E, em "Romance Sonambulo", temos a fusão total entre imagens e ritmo.
Pleno de significados, mas condensado ao limite, o poema acorda em nós toda a dimensão do tempo que escorre entre os dedos, da distração fatal por onde a vida passa até que já seja tarde, tarde demais.
O ritmo disfarça, e reforça, a construção dessa imagem central de um tempo que aparenta paralisia e que se move à distância dos atores.

Em sua primeira estrofe temos um clima de estagnação, um estado de paralisia, mas certas imagens já insinuam que algum drama oculta-se nessa quietude.

"Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montana.
Con la sombra en la cintura
ella suena en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fria plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la estan mirando
y ella no puede mirarlas."

O primeiro verso, Verde que ter quiero verde, é uma tautologia que parece anunciar um rosário de banalidades.
Mas o poema lhe dará outro sentido: paralisia, morte, falência, que trancorrem na inconsciência do ator.
Nessa primeira estrofe há um estado de calmaria que é apenas levemente ferida pelos ojos de fria plata e pelos dois últimos versos: las cosas la estan mirando / y ella no pude mirarlas.
A vida, a carne, dissolvida no verde - e "os olhos de fria prata".

A segunda estrofe introduz bruscamente, em corte, uma nota de inquietude contra a calma aparente:

"Pero quien vendra? y por donde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
sonando la mar amarga."

Na terceira estrofe essa mulher está ausente.
O diálogo de dois compadres revela-nos que um outro tempo houve, que há algo mais naquela varanda dissolvida no verde
, e que as coisas poderiam ter sido de outro modo - poderiam, mas não foram:

"¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa. "

O primeiro deles busca a mulher - busca também um tempo que talvez já não esteja lá. Não mais:

"Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda! "

Quantas vezes te esperou: houve um tempo de "cara fresca, negro pelo", houve um tempo em que apenas a varanda era verde, não a carne, não a vida.
Mas esse tempo já se foi:

"Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban. "

Verde carne, pelo verde - olhos de fria prata. A morte como o tempo escorrido, o tempo que se perde por não sabermos quem nós próprios somos, como criaturas e matéria, o tempo que passa e que não retorna, sem disso dar recibo ou aviso.
Contudo, a dramaticidade do poema diz muito mais.
Pois ela se faz por imagens que ao mesmo tempo que parecem estar no plano suprareal do sonho (ou do pesadelo), são tão substantivas, tão físicas, que nos arrastam à força para a cena, os lugares, acontecimentos, sentimentos - que são apenas vagamente sugeridos, mas tornam-se plenamente vivos, visuais, pela força do contraste entre cenários ora aparentemente calmos, ora tensos.
Quando La noche su puso íntima / como una pequeña plaza, é que Guardas civiles borrachos / en la puerta golpeaban. Esses dois últimos versos parecem sair do nada, não relacionados ao contexto. Contudo, esse é o contexto. Eles cortam a linguagem do sonho/pesadelo. Eles são o pesadelo, o tempo em que acordamos, presente, material.

Salvador Dali e Luis Buñuel não gostaram de todo o "Romancero Gitano" que consideraram "tradicionalista".
Consta que Federico ficou abalado com essas críticas e as levou em conta tentando ser "mais moderno" quando escreveu "Poeta en Nueva York".
O "Romancero Gitano" revela sem dúvida a continuidade de um legado, um fio que vem de poesia
antiga. Mas sua escrita é certamente moderna - e é particularíssima sua combinação de significados e o material verbal de suas imagens.
Dali e Buñuel deveriam talvez ler o que Ezra Pound escreveu sobre poetas antigos: sua força era tamanha que ali havia mais influências de interesse para um poeta moderno do que em certos "modernistas auto-declarados" que se tornaram apenas diluidores de formatos da moda. Ora, Homero é mais moderno do que esses "vates velhacos e falsários", para usar o verso de Vladimir Maiakóvski.


A morte de Lorca

Federico Garcia Lorca é um dos grandes poetas do século XX e de todos os tempos.

E por que o mataram?

O historiador Ian Gibson em "A morte de Lorca" e em "Federico Garcia Lorca: uma biografia" tentou encontrar a razão. Curiosa aliás é a história do próprio Gibson e de como surgiu seu fascínio por Lorca.

Federico foi morto nas cercanias de Granada, talvez na localidade antes denominado como 'Ainadamar' ("fonte de lágrimas"), havendo relatos de que um dos assassinos, Juan Luis Trescastro, disparou mais alguns tiros - quando o poeta já estava morto.
Gibson levanta várias possibilidades, já que o seu assassinato não seria politicamente interessante, naquele momento, para os fascistas - ao menos para a sua alta cúpula.
Mas havia na Andaluzia muitos fascistas que odiavam pessoalmente Federico - por suas ligações com os republicanos, por seu anti-fascimo, por seu homossexualismo, por sua poesia, e até mesmo pelo modo positivo com que considerava a influência mulçumana na formação daquela região. Lorca reunia características intoleráveis para um fascista, especialmente os ultracatólicos.

Sugiro a todos os que se interessam seja por Lorca seja por esse período crucial, a leitura das obras de Ian Gibson.
Há inclusive, correndo pela Internet, uma história absurda, nascida em um filme recente, onde certas desavenças de família passam a ter um papel ressaltado na trama do assassinato. O mais escandaloso é que a obra de Gibson é citada em favor dessa tese. E quem as leu por inteiro sabe que o fato de alguns dos fascistas da Andaluzia terem parentesco distante com Lorca não vai além do detalhe casual nas investigações de Gibson, que não deixa aliás margem a dúvidas.

Diz Gibson, assinalando, sem meias palavras, o papel da ala mais radical do franquismo:

"É minha convicção de que a perseguição que conduziu à morte do poeta foi iniciada não por um homem mas sim por um grupo de ultracatólicos e membros da 'Acción Popular', de mentalidade semelhante"

Lorca tornou-se assim, à revelia, um dos grandes signos do século XX.

Esse século que foi o "século do assalto aos céus", como disse Isaac Deutscher a propósito dos tempos iniciais da Revolução Russa, foi, também o século de fundas descidas ao inferno.

Ah, os poetas... Esse século não passou sem eles: a morte de Federico Garcia Lorca (assassinado pelos facistas), o suicídio de Vladimir Maiakóvski (sua amargura com os rumos da Revolução Russa) e a espantosa insânia criminosa de Ezra Pound (sua adesão a Mussolini), são, como emblemas, signos vivos dos vértices abismais do século XX.
A História sai dos poemas para invadir a vida dos poetas, em uma fusão improvável da Ilíada de Homero e da Terra devastada de Eliot, mas com personagens que se movem em mundos paralelos - as faces invertidas de um mesmo mundo dividido, a epopéia e a tragédia do século XX.

Foi isso o que me levou a escrever o poema "Fim de Século". Para o bem e para o mal, o século XX é o meu. E se pátria existe, minha pátria é o meu tempo. É dele que sou feito. Por isso esse é o poema que mais gostei de ter escrito.

E os 70 anos da morte da Lorca lembram-me quem sou.
Eu seria outra pessoa se não tivesse lido a poesia do meu tempo. Devo a poemas como A terra devastada de Thomas Eliot, Ode Marítima de Álvaro de Campos, Poema sem herói de Anna Akhmátova, Romance Sonâmbulo de Lorca -e outros- o fio da meada do meu tempo, aí mais nítido do que na linguagem teórica. E, também, a percepção do tempo como um entidade aparentemente tangível, mensurável, mas que escorre irrefreavelmente entre os dedos - um espaço em movimento.
Ou, na síntese direta de Manuel Bandeira, o que poderia ter sido e que não foi.
Esse verso de Bandeira é atemporal.
Mas nada definiria melhor o século XX.

 
     
     
     
  Basilio Miranda.  
     
voltar