A clareza da
voz - 1
Talvez soubessem os pássaros
e as linhas das folhas
o rumo das palavras;
talvez confusas
fossem as palavras
em seu movimento de conquista
do significado dos espaços
que há entre
folhas e pássaros.
E se o ar apresenta-se carregado de outono
propício à leveza dos signos
mais torna-se falsa
a voz e frouxa a fala,
raso intervalo onde a consciência
já nada diz - exceto, por inércia, o óbvio.
Nem importa o desejo
oculto na língua
se os dedos não sabem alcançar uma mulher
na beira dos sentidos.
E se já
nem sabes o rumor das coisas vivas
descendente ingrato de poetas antigos
esquecido do sabor das vozes graves
aptas à
fala que há na luz incipiente
desta madrugada sem retórica
onde o céu majestoso e justo esmaga o ar de devaneios
e interrompe a
voz tonta, de si comovida.
Então um poema atingiria a palavra em seu coração
para que a consciência das coisas não lhe fosse tão estranha.
Não a ponto
de silêncio
não a ponto de coisa ser
mas despojada de ego
palavra limpa,
sem piedade de si
de suas sílabas insatisfeita
com a clareza da perplexidade
que não há nas coisas.
Basilio Miranda
.