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A clareza da voz - 2

A Emygdio de Barros, artista interno do inconsciente, à sua clareza ("Deus não me deu verdades, só certezas")



Seria deus a palavra autárquica
a ausência da fala
aquela que é o que imagina ser.

Seria deus um cacto encoberto
no deserto mais que seco
sucinto, de areias escasso.

Seria deus um pacto incerto
de certezas tão pleno
de verdades tão falto.

Passo a passo revejo o rito
o passar das horas após horas
deus algum sabe o instante da morte.

Soubesse, com calma estranharia
o cultivo do êxtase em agonia
a glória de sofrimentos toscos.

Retornaria ao princípio
anularia sem piedade o tempo
fosse deus o poder das fontes.

E fosse quem imagina ser
seria deus um homem claro
à semelhança do que é falho.

Então, cansado de alturas e fausto,
o paladar a eterno que há nas certezas,
liberto decifraria a face de Michelangelo:

saudaria a audácia dos anjos decaídos,
celebraria a nudez, negaria 3 vezes
as palavras secretas retidas

na recusa da voz
em lábios imperdoáveis, hesitantes
como se a perfeição almejassem.


Basilio Miranda

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