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  A minha intrusa tristeza  
   
  Ao Poeta Torquato Neto,
morto em 1972
- o desnecessário ano da sombra sem sol
 
     
    Vinha no chiado
dos meus sapatos molhados
a ferir areias inocentes
a voz desta tristeza tardia
sem razão de ser.
Esta ave noturna
que não sabe de onde veio
nem se nasceu ou se berço teve
e que de direito nem minha é.

Esta que me acompanha
como um cão vadio
a quem em vão espanto
com um bater de pés.

E que não me deixa rir
nem me faz chorar
e que sendo dor
não concede lamento.
Como se o coração
já nem fosse útil
já nem fosse músculo
ao acaso batendo horas
feito um relógio estúpido.

Esta que me acompanha
como a sombra sem vulto
alongando-se no asfalto
de uma noite insensível.

E que paciente espreita-me
nas brechas dos bambus
nos gemidos das folhas secas
na hesitação dos passos
presos ao peso da noite.
Esta que me aguarda
à porta da casa
como se minha fosse
e eu a ela pertencesse.

Esta que me acompanhou
como o asfalto úmido
refletindo meus passos
na noite de um país deserto.
     
 

Basilio Miranda

 

     
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