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  A Vladimir Maiakóvski
 
 

É tua a voz que ouço agora
camarada Maiakóvski?
São teus últimos passos na Avenida Niévski
que tornam tão longa esta hora?

Teus versos perfurantes trago sempre aqui
ao alcance dos olhos – mas queria arrancá-los do coração.
Pois eles queimam, camarada – e estão
no melhor e no pior dos meus dias.

Os funcionários do partido não te apreciavam muito.
“Incompreensível para as massas”.
Isso chegou a te incomodar?
Era disso que falavas?

“Ao Comitê Central do futuro ofuscante,
sobre a malta dos vates velhacos e falsários
apresento em lugar do registro partidário
todos os cem tomos dos meus livros militantes.”

Mas, por um instante, foi tua a vitória. Percebeste
o discurso do camarada Lenin no XI Congresso do Partido?
”Já criamos tantas siglas... é o que mais fazemos. Mas faltou uma:
a ‘MentCom’, nossa maravilhosa mentira comunista”.


Quase um Hamlet, não te parece?

Mas ele estava no fim.
Sua voz tinha já a ironia da despedida.
Venceram os amestradores
de palavras mímicas
os fáceis de ouvir
e os macios de ouvido.

E tu sempre preferiste
a simplicidade sintática
de um tiro no peito.
Sim, em ti a anatomia ficou louca
por todo o corpo tinhas coração.

O que temias: permanece a época
dos falsários fascinantes - e ela não será breve.
Perdoa-me, camarada, se te persigo
como uma velha tonta
à cata de lembranças
que já nem minhas são:

nada podia ser feito, bem sei;
teus sentidos advinharam: tarde demais.
E sei que um dia até marcaste um encontro
entre a palavra comunismo
e a palavra liberdade.
Mas o camarada Dzerjinski
andava sempre atento
e encarcerou as duas.

Ainda assim, tua será a bandeira
utópica-nostálgica,
que a memória assobia:

Bandiera rossa, Bandiera rossa
Avanti o popolo, alla riscossa
Bandiera Rossa - trionferà
e viva il Comunismo e la Libertà.


A tua bala, Vladimir, atravessa o teu peito
e rasga a juventude apodrecida em meu corpo
com as chamas da heresia
e o peso da tua derradeira ironia:

o tiro, foi com a mão esquerda que o disparaste

(talvez por mera coincidência;
mesmo assim é por isso que ainda arde
na pele
e nesta consciência inconveniente, intrusa,
inquieta).

 
 
 

Basilio Miranda

 

 
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