(publicado em "Antologia
AdVersos")
Barbeiro de defuntos
Para Jussara Hughes, inglesa e brasileira do Mato Grosso.
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"Justificar a morte de negros e bois: Todo escravo que morrer justificará sua morte com gente da fazenda e de que morreu, e o mesmo será com os bois, para que de tudo haja clareza, e as crianças que nascerem fará assento delas."
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"Castigar os negros: O castigo que se fizer ao escravo não há-de ser com pau nem tirar-lhe com pedras nem tijolos e quando o merecer o mandará botar sobre um carro e dar-se-lhe-á com um açoite o seu castigo; e, depois de bem açoitado, o mandará picar com uma navalha ou faca que corte bem e dar-se-lhe-á com sal, sumo de limão e urina e o meterá alguns dias na corrente. E sendo fêmea, será açoitada à guisa de baiona dentro em uma casa com o mesmo açoite."
João Fernandes Vieira
- capitão-do-mato, feitor-mor, dono de engenhos.
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"Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a India descoberta
Ficaram sem trabalho(...)"
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos - "Opiário".
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Calos do morto
hábitos comedidos
de meio-fio e esgoto.
Oficiais de exéquias
e requintes;
tântalos, tântalos,
antigos e tantos;
o oficial de órfãos
o oficial de ausentes
o barbeiro de defuntos;
longos, monges,
cravina de túnis,
algodão e alfanje,
em branca túnica
confeccionada a tempo
pelo alfaiate de mortalhas.
Como em um poema antigo de negros, porões, infâmias, feitores
e troncos;
chicote, gritos medonhos;
alegoria de algozes
de seu próprio musgo
renascida.
E medo
e gargalhadas desprezam
o medo,
exibindo seu busto e esse verde riso
desbotado, estampado em barbas
de musgo e bronze
e nas sombras
das largas abas
de hediondo chapéu.
Ofícios, calos e hábitos do morto
à sombra da santa cruz;
uns de Sagres lançados
à própria sorte
vagam por adamastores
e infinitos sem horizonte;
outros de lá saídos
finitos, hereditários
para a glória fátua
de reis fracos.
Ouvidores,
capitães risonhos,
carruagens carregando airosos bigodões.
Ordenadores,
bragantinos,
afilhados
de João das Regras.
Sepulcros
subitamente abertos
como quando
o vento
faz a porta bater:
caprichoso, o feitor ajeita a chibata;
testa-lhe a firmeza, o estalido;
esperta, ágil
língua de experiente réptil.
E vai sumindo, sorrateiro, sombra distraída
que repentinamente
dá por falta
do seu vulto.Formigas trabalhadeiras carregam
baratas mortas;
capitães brancos
negreiros negros
monges de algodão e alfanje -
como quando os deuses da morte
cumprimentam cordialmente os deuses do morto.Tradição do meu país,
fantasmas visíveis ao correr do dia
nas calçadas, ruas esquivas, esquinas
de curvas avaras
e ávidas feições
pequenas
em pele nua e rápidos
avatares
de pele em carne e carne
em pele
de osso em forma
pouco farta.Infâncias fantásticas
em ruas, curvas, becos, novas ruas
estreitas, nuas
em aço e asfalto,
brutos
sinais de si
finos signos
fazendo-se faca
em tons ligeiros
de fantasia e fuga.Um menino, um pequeno
menino
faz com que sintas incontrolável pavor.
Imaginas
que carregue punhais
nas falhas dos dentes.
Respiras fundo,
apressas o passo,
atravessas a rua.
E de fato ele te apunhala
quando menos esperas.Um feio, raquítico menino
violenta sozinho
a paz do brasil.
Queimem o pequeno assassino
- salmoura e urina
já medo não fazem -
deitem-lhe gasolina
e fogo às carnes,
às veias estricnina
crack ao cérebro
ácido às narinas.
A ferros, dentes e ossos castigai -
enterrai-o vivo
com uma prece
aos ouvidos
- ave, ave
ave maria -
seu coração
só de jesus
sua alegria
a santa cruz.E o Condor da América
livre de andradas e colombos
pernadas e quilombos
em branca túnica confeccionada a tempo
- mortalha de monge de carnaval,
brasileiro de samba e pandeiro,
maioral
brisa que beija e balança
- esvoaçante pendão,
cordial, altaneiro,
ainda que algo impudente
em seu generoso
jeito de esvoaçar -
abriga em largo cordão
um capitão do mato
um capitão bicheiro
um membro comunitário
um general de pijama
um socialista otário
um preto de fraque
um branco frajola
um valentão bolha
um malandro agulha
um juiz de aluguel
um rei mago
e uma bunda trêmula.E sob os coqueirais repousam,
demasiadamente infames,
nenhum coco inoportuno,
os barbeiros de defuntos;
uns falsos baronetes
uns finórios menores
uns marmanjões sociais;
verminália
oleosa
imprestável- emoldurados
antepassados
de si mesmos,
entre brazões
bronze sob musgo
submodernidades
poeiras antigas
e outros objetos
igualmente inúteis.
Basilio Miranda.