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(publicado em "Antologia AdVersos")

Fim de século


poetas que, direta ou veladamente, são aqui citados:
Aldir Blanc, Bertholt Brecht, Ezra Pound, Federico Garcia Lorca, Vladimir Maiakóvski.

 

Revolta-te contra essa cara
aborrecida.
Espelho,
ao começo do dia.

O sentimento da morte
induz à percepção
da descontinuidade histórica.
Útil senti-la.

Revolta o dia. E o dia
quem sabe revolto
deixará o que ficou
onde preferiu ficar
- na memória, onde será útil,
mas não como horizonte
- isso nunca.

A merda fóssil já foi revolvida.
O poeta Vladimir Maiakóvski matou-se pouco antes.
1930 foi um mau ano para a poesia.
O dirigente comunista Mikail Tomsky riu desses homens sensíveis:
- o cárcere curaria suas angústias.
Anos piores viriam a seguir
- 30 foi uma década dura
mesmo para homens duros.
E, em uma noite insuportavelmente silenciosa e longa,
o ex-dirigente Mikail Tomsky
arrebentou o crânio nas paredes de sua cela.

Próximo à cidade de Granada,
no mesmo local onde teria existido
uma fonte de lágrimas,
um homem disparou dois tiros inúteis
no cadáver
de Federico Garcia Lorca.

Talvez ainda ouvisse os ecos
de Isabel, a Católica, filha da Louca,
madrinha da Santa Inquisição,
que ordenou um dia:
- queimem todas as mourarias de Espanha.

E brandia
o triste Cristo
medieval, tosco em madeira velha,
feio, angustiado - culpado?
- da breve, pagã
ressurreição da carne.


Estamos vivos,
camaradas passados.
Não vimos a guerra,
apenas ouvimos falar.
E isso decerto fez diferença.
Há tempos ocultamos cadáveres
sob a luz do dia.

Manhã política das multidões
pressa dos trens,
a leste, a sul, norte, oeste,
pobres inorgânicos
alheios aos partidos políticos
modernos e de massa,
aos secretários gerais com plaqueta na porta,
ao tilintar brechtiano dos telefones,
milhões de miseráveis nutridos
de algum socialismo e barbárie
- o tempo vencerá toda ilusão?

Talvez olhando esses anos
e neles pressentindo sua sombra,
o velho demente do povoado
a quem até crianças apedrejam -
e já velho demais para fazer amigos,
Ezra Pound,
poeta e criminoso,
ergueu ainda uma vez
a sua voz:

"A formiga é um centauro
em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade,
eu digo: abaixo!"


O século entre os dedos
derramado,
ah, compadre!
onde está tua menina amarga?

- quantas vezes te esperou,
quantas vezes te esperava,
cara fresca, pelo negro,
nesta morta varanda.


Mas, ter batido com decência
para que um cego enxergasse,
também isto é vaidade?

"Não.
Aí está toda a diferença:
ter feito ao invés
de não ter feito."



Basilio Miranda

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