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  avenida noturna  
     
  "Deixo ao cego e ao surdo
A alma com fronteiras,
Que eu quero sentir tudo
De todas as maneiras.(...)"
            Fernando Pessoa

     
    Olho a sombra das estrelas.
E daqui parecem prédios. Não, nunca foram assim.
Isso, que parecem estrelas, são lâmpadas prosaicas.
Chuva pálida, prata - mentiras de um asfalto úmido.

Essas estrelas à sombra
agora perdem-se nesta avenida
maior que a minha rua,
maior até que a rua da infância
 - vista de dentro, parecia imensa;
depois foi encolhendo tanto
(nunca mais a vi como era)
e agora já nem faz sentido.

Não hoje.
Hoje hei de vagar pela mais larga das avenidas
deserta, iluminada a vapor de sódio.

Ao fundo Beethoven?
Pode ser.
Mas, hoje, nenhum som vibrando sem uma boa razão.
E se comédia houver, então que morra gente
e ainda mais que nas tragédias.
Hoje quero um puro Shakespeare.
Um conhaque puro nas veias.

Hoje quero a mais perfeita surdez do mundo
uma nota de Beethoven além dos sentidos
Jimi Hendrix e Otis Redding
no mais nítido silêncio.

Hoje visito minhas fronteiras.
Hoje quero sentir tudo
à minha maneira.
     
     
 

Basilio Miranda

 

     
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