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(publicado em "Antologia AdVersos")

carnaval, boca do lixo / boca do luxo

"Tira esse canto murcho da viola
vira esse disco micho na vitrola
gira esse corpo frouxo e rebola
agita esse passo troncho, desenrola
bota essa marcha-rancho na cachola
tira essa mão trouxa da cabrocha."


Dança sem mangue nem sangue
avenida rio branco, exangue
pança cansada de pança
riso raso, resto de rosto.
Pelo menos vamos estragar o asfalto
e a sola do sapato.

Esgotonautas atravessamos
o solo àspero, duro
chão de São Paulo.

No Pátio do Colégio
saudade; solitário,
o coração paulistano
de Mário de Andrade.

Na Praça da Sé reunidos
contos do vigário, otários,
apocalipses missionários
infernos fervendo bocas
pregos pregando narizes
cobras curando varizes
- e passam enterros e gatunos
professores e alunos,
estupradores engraxam os sapatos.

O Viaduto do Chá
sem condes
sem bondes
sem suicidas
apenas o relógio do Mappin
avisando
que tua hora está próxima
devedor.

Avenida São João
rumor de festa
restos de batom
cheiro de sexo.

Morena da rua Aurora,
morena que não
me fez penar;
morena escura
em noite
sem luar;
morena imensa
com fome
de devorar.

Ela largou uma gargalhada escandalosa
e disse que não era nenhuma pivetinha
dessas que namoram depois das sete
e se encantam com versos alusivos à data
e à meia-noite perdem o cabaço.
Pegou o vestido, se vestiu,
pegou a peruca no cabide
e foi até o espelho
para nunca mais voltar.

- Eu sou a tal da Avenida São João
a que não se fingiu de morta
a que olhas de lado.
Eh, cara de belzebu
boquinha de cu
olha de lado!

Pensas que sou Mary, a tifóide?
a tuberculosa que escarra
na limpidez da tua água?

Ode marítima,
sou a sereia dos naufrágios
a ninfa obscena
a embarcada da Ilha dos Amores
a que matou de lágrimas
uma noiva deixada em Sagres.

Puta?
Perpétua
louca
que da ostra
escapa
sou a pérola
sou a pura
fascinação.

 

Basilio Miranda

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