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  Aos vivos, a herança  
 
 
  "(...)Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.(...)"
(Manuel Bandeira - A Morte Absoluta)
 
     
   

Estava ali, cabal, posto e completo
o morto em sua toda envergadura:
na altivez do silêncio circunspecto
como quem da vida tece conjecturas.

Ali estava e só. No metódico invólucro;
a gravata constrita, as corretas flores,
a lágrimas exposto, no pesar inócuo
que só aos vivos abranda as dores.

Apenas o brilho dos cabelos a iluminar
a placidez vaga das pálpebras sonhadoras:
leve marca de mágoas, pouco a lamentar;
das dívidas, resta o desgosto dos credores.

Em sua parca sintaxe, seu ralo dicionário,
isento de amigos, inimigos, confidências
espetacular é o morto, exemplar solitário,
tal a singularidade que há na inexistência.

Aos vivos, ali a falta indefinida, o passivo
da dúvida inerente ao tempo e à matéria,
o peso do irremediável e do irremissível,
de si mesmos já antecipando a nostalgia.

     
     
 

Basilio Miranda

 

     
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