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  A maldição de Wall Street  
  (no decorrer do século XXI)
 
     
  - A Joaquim de Sousândrade  
     
    Havia chegado o tempo das vozes que não se deve ouvir.
Bocas escancaradas, talvez retorcidas - mas sem horror
nem anúncio de grito lancinante.

Beiravam as estradas.

Tornou-se um problema seguir o curso do café da manhã
e impraticável estabelecer a hora do almoço.
Não por falta de aviso:
os bordéis vazios anunciaram o crash com boa antecedência.

Na bolsa de Chicago dólares sumiram por encanto.
Quando ainda havia uma bolsa em Chicago.
De Cingapura ao porto de Rotterdam desabaram as commodities
e o circuit breaker tornou-se redundante e inútil.

A última relva de novo reverdecia sobre o túmulo de Karl Marx
no cemitério de Highgate - mas isso não lhe calou a ironia;
a obsolescência acelerada dos meios de produção foi a sua carta na manga
e quando os últimos trocados enfim escoaram pelo ralo
a força das máquinas já não valia o seu preço
- mas nem assim os profetas do fim do mundo
ganharam o dia.

Hoje se algum poeta descer aos infernos encontrará as portas fechadas.

Nem a tênue promessa da prata no mercado de futuros
nem o pó branco no nariz elétrico dos corretores
nada deteve a marcha do capital em busca de sua nova era
arrebentando fortunas velhas e os velhos nomes que se davam às coisas
e já nenhuma clearing house garantiria o que quer que fosse.
Nem mesmo as putas mantiveram a palavra e o preço.

     
     
 

Basilio Miranda

 

     
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