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A fala escoa
na confusão do concreto,
perde seu corpo, ecoa inversa,
Babel das ruas de cotovelos.
A palavra vale já menos que um grunhido,
resumo dos significados doces aos ouvidos do tempo
(as gentes adestradas ao ruído previsto).
Réptil, a moeda falsa rasteja até soar verdadeira.
A altura dos prédios esmaga o sonho dos homens
eles voam baixo, na lama das ruas.
A fala nasce do estômago e da cabeça alheia.
A moeda diária, automática,
de troca fácil, volátil, dúbia;
triste astúcia
de roubar à ironia seu antigo e único direito.
Olhar a cidade do topo dos prédios;
um mar de camisas desaparece cinza,
e já não se vê os punhais diários,
e já não se ouve o grunhido uníssono,
as palavras amassadas da mansa manada
a gritar em transe o nome
do seu açougueiro.
Olhar a cidade com olhos imensos
até esquecer o eco, até que o eco
perca-se, difuso; até que desapareça
como um rastro de abelhas.
Calar a cidade com um estalar de dedos,
paralisar por um átimo
a marcha sem rumo.
Calo-me sobre a cidade e atiro-me à imensidão aberta,
o topo dos prédios lembra a altura do sonho
e nele há asas, há fuga,
há um dicionário minúsculo, um idioma de vocábulos
raros
de baixa oxidação
que devem ser pronunciados lentamente
com a consciência do seu peso.
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