Nomes por onde andei
"(...)Choro como os meus choraram
na distância da casa paterna
nas lembranças atávicas
na ausência dos avós
nos sons e cheiros
que de além-mar vieram.
Choro as alegrias esquecidas
das infâncias lembradas
nas conversas de família(...)
Entre a melancolia
e a alegria
misturo sabores(....)
Busco o Alentejo
e encontro Minas.
Vou para São Paulo
e acabo no Porto.(...)"
Afonso Carlos Marques dos Santos - em "Entre Dois Mundos"
Tantas vezes penso
em nomes;
de coisas, de seres. Sim:
a palavra "cadeira" não tem pernas
(como a palavra "cão" não ladra;
e já era assim antes mesmo que Ferdinand de Saussure viesse ao mundo
e que "lingüística" fosse uma palavra útil;
bem antes até que o velho Spinoza pensasse sobre isso).
Os signos são arbitrários
(e, talvez por isso, afetivos).
Gosto deles quando os ouço
(nem chego a percebê-los se os digo).
E, mais até que os de coisas e seres,
os nomes de lugares abrigam-se
em uns cantos fáceis da memória:
ali já cheiravam ao queijo e ao azeite
desses lugares onde antes nunca estivera:
Braga, Bragança, Guimarães, Serra da Estrela,
Minho, Trás-os-montes, Viana do Castelo,
Douro, Miranda, Mirandela,
o Viseu, o Mosteirinho, a lendária Tondela
- onde nasceu o meu pai.
Desses lugares vinham parentes
as arcas de madeira com o peso da viagem sem volta
que arrástavamos pela Praça Mauá
cais do porto do Rio de Janeiro
(mas estes cá eram lugares quase anônimos
de tanto que os via).
Vinham eles de lá,
vinham daqueles nomes fantásticos
que por toda a infância povoaram
a minha abismada imaginação.
E não sei se pela agitação do cais
(ranger de guindastes, ir e vir de estivadores)
se pelo cheiro da maresia e das malas
as lembranças dos desconhecidos avós além-mar
as histórias a beirar o épico
a conversa estendida pela madrugada
ou o proibido dedo de bagaceira
a arder-me a alma,
fazia eu o caminho inverso
e por toda a infância
viajei por aqueles lugares
através dos seus nomes.
Basilio Miranda
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