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Se o acaso
ou o vento entregam-te uma folha
um naco de papel, algo
que lembre a página
à espera da escrita
e se rasgas sua brancura
para que uma palavra nunca lá esteja
para que o lugar da memória
pareça deserto
ganharás enfim a paz das coisas
e a simplicidade das plantas.
Por isso é que o silêncio disfarça, sórdido,
a existência, crua, do fato
e dissolve em transcendências elegantes
o Horror, ah, o Horror inefável.
Por isso é que em todas as partes
certos falantes de outrora calam-se
à espera do esquecimento.
As pedras do caminho pouco lembram
mas ali pisaram os Moedeiros da Esperança.
O Santo Ofício,
o piedoso defensor de causas justas e indiscutíveis,
o homem-bomba e as 70 virgens,
o indiferente às mulheres mutiladas e aos assassinados de Cuba,
Kosovo, Iraque, Afeganistão
(os assassinatos inaceitáveis e os aceitáveis),
o jovem com a suástica, o braço erguido e o olhar fixo
todos plenos de fé e irrevogáveis, luminosas esperanças.
E perguntas: onde estava Deus naqueles dias?
Sabe-se lá.
Em Auschwitz a palavra sauna tinha significado peculiar.
Também câmara de despir-se, ou hospital.
Senhas, convidando ao riso
os versados nesse dialeto de propósito restrito.
As palavras: a primeira vítima.
Quebradas em partes, recompostas
- a ironia ilimitada que há na inteligência verbal
dos significados duplos:
a banalização do mal.
Nas paredes cheias de ouvidos, a palavra muda:
"Verhalte dich ruhig"
que pode ser traduzido assim:
mantenha-se calado
ou assim:
toma cuidado, tudo sempre pode tornar-se pior.
Sim: o passado nunca é apenas passado.
Onde estava Deus naqueles dias?
Não sei dizer, que nele infelizmente não creio.
Mas divindade havia em certos homens.
A nudez tímida de Mulheres diante do carrasco.
O Pianista de Varsóvia
- sua humanidade respirando entre ruínas
com os pulmões da perplexidade.
O Padre Kolbe
- que escolheu morrer no lugar de um outro.
Sim, ainda havia Homens naqueles dias.
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